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Notícia

2° edição do projeto "Corpo em Voga" convoca artistas à ativismo político

2° edição do projeto

Projeto recebe verba do poder público e oferece oficinas gratuitas para artistas. Primeira etapa começou nesta segunda (13)

Criado em Janeiro de 2018, e premiado pelo edital 006 da Manauscult, a 2° edição do projeto Corpo em Voga, discute a segregação artística regional, nacional, internacional e atual imagem política da Arte no país que vem sofrendo um desmonte desde ministérios a pequenos fomentos públicos. É com estas e outras propostas que o Corpo em Voga, voltou com força total em 2020.


Destinado a artistas profissionais, semi profissionais, professores, estudantes, pesquisadores de artes cênicas de Manaus e interessados em dialogar sobre a arte e seu funcionamento sociopolítico cultural,  o projeto quer mobilizar a classe artística em defesa da própria categoria, como explica o bailarino, produtor e pesquisador Rodrigo Vieira, um dos artistas que encabeçam o projeto, num coletivo que une diálogos pensando sobre interatividade, conectividade, existência, política, arte e corpo. 

"Os artistas brasileiros vem sofrendo há um bom tempo com a desvalorização de seu ofício. E se a arte defende a bandeira de um povo, fortalecendo o turismo e o quadro econômico de um território, porque ainda se questiona a importância dela?”, disse.

Pensando nisso, o Corpo em Voga quer fortalecer a atuação política dos artistas amazonenses oferecendo o máximo de integração das artes da cena. 

"Fazemos isso acreditando na interatividade como maneira alternativa de conectar diferentes pontos de vista e ampliar questionamentos sobre corpo, identidade, existência, arte e sociedade”, disse. 

A primeira edição do projeto aconteceu em janeiro de 2018, com a participação de artistas como Bárbara Albuquerque (DF) Isabelle Fernandes (SP) Adriana Barbosa (AM) e o próprio Rodrigo Vieira, com cada um explorando uma vertente de pesquisa corporal. Porém, sem ajuda, o bailarino reconhece que os preços não ficaram tão acessíveis, mas neste ano será diferente.

“Este ano fomos  contemplados pela Manauscult e estamos oferecendo quatro oficinas com pesquisas em dança e teatro gratuitas. Serão 20 vagas, entre participantes e ouvintes, em duas etapas”, explicou.

A primeira começou nesta segunda-feira (13) e vai até o dia 26, com Pammela Fernandes ministrando uma oficina de dança contemporânea, com foco no contato, corpo e solo. Além dela, Maurício de Oliveira ministrará a oficina “A escrita do corpo", que finalizará os estudos com uma mostra no palco, dando oportunidade aos participantes e oferecendo ao público uma apresentação gratuita. 

Rodrigo revela que mesmo com o incentivo, ainda será necessário mais apoio para que o projeto tenha continuidade e atinja o maior número de pessoas.  

“Essa é a primeira edição contemplada pela Manauscult com verba para execução das oficinas, e temos vários apoiadores mas não temos um patrocinador fixo, por isso nossa ideia é conseguir o máximo de apoio para que o projeto possa alcançar o maior número de pessoas e continue em outras edições” completou.

Novas oficinas

Ainda segundo Rodrigo, as pessoas que não foram selecionadas em nenhuma das quatro oficinas gratuitas, terão oportunidade de participar de um outro quadro desenvolvido pelo coletivo, que vai abrir espaço para oficinas com um valor acessível, o que além de agregar ao currículo dos participantes, também abre oportunidade de trabalho remunerado para os ministrantes.

Oportunidades e inclusão

O fruto do trabalho aparece nas vidas de artistas, que encontraram no projeto, uma forma de se destacar no cenário local, e trazer visibilidade a si mesmo, a seus projetos pessoais e às causas de toda uma classe.Um exemplo disso é a multiartista, pesquisadora e produtora independente Adria Moreira, que participará do projeto pela primeira vez.

Orgulhosa de ser mulher cis, negra e cientista, ela é idealizadora do Freeta.Lab, plataforma coletiva que tem o intuito de disseminar o protagonismo e representatividade de mulheres marginalizadas nos espaços de Manaus. O Corpo em Voga acabou sendo uma janela que abriu outras portas para ela e para seu projeto.

“Eu trabalho como autônoma. Como sempre fui bailarina-intérprete, lancei minha marca e trabalho como artista-pesquisadora independente. O projeto foi muito importante pois me viabilizou oportunidades e eu vivo delas”, disse.

Para Adria, o cenário é fértil para iniciativas do tipo e deve dar visibilidade a artistas que precisam dessa inclusão para mostrar seu trabalho.

“Eu vejo muita importância quando você reconhece o conhecimento que tem e pode viabilizar isso para que outras pessoas tenham acesso a ele. Manaus está pulsando expressão, as veias estão abertas na Amazônia. No entanto, a arte que tem sido exercida está tão hierarquizada de maneira vertical que fica difícil acessar um lugar de privilégio. A iniciativa do Corpo em Voga tem potencial para construir um território inclusivo e acessível a artistas que estão a margem de poder (dinheiro) e reconhecimento”, concluiu.

Visibilidade que faz a diferença

Na próxima etapa do Corpo em Voga, projetos como o do Núcleo de Dança Balé da Barra, que desenvolve um trabalho com crianças na Zona Leste de Manaus há quase 25 anos, ganharão mais visibilidade, aumentando o intercâmbio com projetos de profissionais, ajudando assim na descoberta de novos talentos em áreas da cidade onde as oportunidades demoram mais a chegar, isso quando chegam.

No projeto, que está perto de chegar ao número de mil crianças atendidas desde 1995, elas aprendem sobre dança no Ginásio Zezão, localizado no bairro São José, no coração da Zona Leste, pagando um valor simbólico de R$ 10 por mês. Elas são acompanhadas dos oito anos de idade até entrarem na faculdade, quando decidem se realmente seguirão a carreira artística ou não. As que seguem na dança, voltam ao projeto para trabalhar uma nova geração, perpetuando um ciclo de amor à arte e desenvolvimento social.

Uma das fundadoras e atual coordenadora do Balé da Barra, Marta Martir, fala da importância que o Corpo em Voga terá para as crianças que participam atualmente do trabalho. 

“A cada vez que saímos do nosso núcleo para participar de projetos de outros profissionais, buscamos a socialização, que o bailarino seja visto e reconhecido por eles. Quando voltamos, passamos novos conhecimentos para as novas gerações. É sempre uma evolução. O importante para nós é isso: desenvolver e evoluir as crianças. Ao longo desses quase 25 anos de projeto, isso tem acontecido e a prova é que além de bailarinos, saíram do projeto médicos, advogados, pedagogos, enfermeiros, fora aqueles que foram para o exterior”, disse.