Instituto Mamirauá realiza, pelo projeto Entre Águas Amazônicas, curso de multiplicadores em manejo comunitário de jacarés para técnicos e organizações comunitárias da Amazônia
O Instituto Mamirauá concluiu, no último dia 03 de outubro, a formação de multiplicadores em manejo comunitário de jacarés em unidades de conservação da Amazônia, integrando as ações do projeto Entre Águas Amazônicas. Iniciado em 28 de setembro, o curso foi dividido entre a sede da instituição, em Tefé (AM), e o setor Jarauá da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.
A turma com 19 participantes reuniu profissionais de nível médio, técnico e superior que atuam no monitoramento, na pesquisa, na assessoria, na regulamentação e no licenciamento de sistemas de manejo de recursos naturais em áreas protegidas, entre eles analistas ambientais, gestores governamentais, técnicos de organizações não governamentais. Também participam representantes de instituições ligadas à regulamentação, à fiscalização, à pesquisa e à assessoria técnica, além de organizações de base, membros de associações comunitárias e alunos do Centro Vocacional Tecnológico (CVT) do Instituto Mamirauá.
A escolha do formato tem uma razão prática. O manejo extensivo de jacarés é o único sistema de uso de fauna que, pela legislação brasileira, só pode ser desenvolvido em regime de base comunitária e dentro de unidades de conservação de uso sustentável. Apesar disso e da ampla ocorrência das duas espécies legalmente aptas à atividade, o jacaré-açu (Melanosuchus niger) e o jacaretinga (Caiman crocodilus), o país reúne hoje raras experiências em funcionamento. Formar profissionais capazes de replicar a metodologia em outros territórios é uma forma de encurtar esse caminho.
A partir do desenvolvimento do curso, espera-se que os participantes consigam complementar as experiências que tiveram em relação ao manejo comunitário dos jacarés e replicar essas experiências em diversas áreas que eles atuam, explica o coordenador do Programa de Manejo da Fauna (PMF) do Instituto Mamirauá, Diogo de Lima Franco. “A demanda sobre manejo comunitário de jacarés é antiga, entretanto, atualmente só existem duas iniciativas desse modelo de sistema produtivo no Brasil, o que dificulta a compreensão dos processos necessários. Por meio do curso de multiplicadores esperamos aproximar os diversos atores-chave nesses processos, assim como nivelar informações e apresentar o que tem funcionado ou não no sistema de manejo que o Instituto Mamirauá apoia”, comenta.
Da sala de aula ao lago
Nos primeiros dias, em Tefé, a programação percorreu a base técnica da atividade: biologia e ecologia de crocodilianos, legislação e sistemas de manejo no Brasil, fundamentos sanitários, técnicas de estimativa populacional aplicadas ao manejo participativo, uso de geotecnologias no monitoramento, associativismo para o manejo comunitário e análise de cadeias produtivas. O conteúdo acompanha o protocolo "Manejo Comunitário de Jacarés em Unidades de Conservação da Amazônia", sistematizado pelo Instituto Mamirauá a partir de mais de duas décadas de pesquisa e assessoria técnica na Reserva Mamirauá.
A etapa seguinte levou a turma ao setor Jarauá, onde o manejo já está estruturado com a Associação dos Produtores do Setor Jarauá (APSJ). Ali, os participantes conheceram a Planta de Abate Remoto (Plantar), primeira estrutura flutuante de abate de jacarés licenciada no Brasil, e acompanharam na prática o levantamento populacional por contagem noturna, o monitoramento de ninhos e as técnicas de captura.
Diálogo entre saber tradicional e científico
Durante a atividade prática de monitoramento nas margens dos corpos hídricos, a analista de pesquisa e desenvolvimento do Programa de Manejo da Fauna do Instituto Mamirauá, Fernanda Silva, destacou o rigor do trabalho de campo para avaliar a reprodução da espécie. "Buscamos os ninhos, registramos as coordenadas geográficas e verificamos a presença da fêmea. Quando presente no cuidado parental, capturamos o animal para biometria e confirmação do sexo, além de abrir o ninho para medir e pesar os ovos, verificando a taxa e a saúde reprodutiva da ninhada", explicou. Essas informações compõem relatórios anuais que subsidiam o pedido oficial de cota para o manejo sustentável.
A vivência de campo foi enriquecida também pela troca de conhecimentos tradicionais com os participantes. João da Silva Carvalho, assistente de pesquisa do Instituto Mamirauá, relembrou como aprendeu as técnicas na infância com o pai e como hoje as alia à pesquisa científica. "Aprendi a acompanhar os animais desde pequeno e hoje passo esse conhecimento para outras pessoas levarem aos seus locais. No lago, usamos a técnica de vocalização do jacaré para saber se a fêmea está perto do ninho, o que garante a segurança da equipe antes de iniciar o trabalho", relatou.
Fortalecimento da gestão pública e fiscalização da cadeia
A imersão prática trouxe aprendizados fundamentais para a atuação de órgãos estaduais e federais de regulação, fiscalização e gestão ambiental, constituindo uma aproximação indispensável para alinhar a regulação ambiental às dinâmicas comunitárias. Ao conectar conservação da biodiversidade, segurança sanitária e cumprimento das normas técnicas, o curso fortalece a legalidade de toda a cadeia produtiva.
Para o médico veterinário e fiscal agropecuário da Agência de Defesa Florestal do Amazonas (ADAF), Laércio dos Reis Júnior, a oportunidade permitiu compreender todo o fluxo produtivo, ressaltando que "essa parceria permite conhecer toda a cadeia, do manejo em campo até o processamento na Plantar, onde a ADAF garante a inspeção e a qualidade higiênico-sanitária da carne para a população". Complementando essa visão institucional no âmbito federal, a servidora da Coordenação de Uso Sustentável da Fauna e da Biodiversidade do IBAMA, Júlia Damo, enfatizou a importância de vivenciar a complexidade do trabalho de campo: "ver de perto o cuidado na contagem dos ovos, a manutenção da posição original do ninho e a agilidade das técnicas de captura acrescenta muito à nossa vivência institucional e aos projetos socioambientais que acompanhamos".
Sobre o Projeto Entre Águas Amazônicas
O Projeto Entre Águas Amazônicas vem fomentando e implementando, desde o primeiro semestre de 2025, estratégias de conservação participativa aliadas à geração de renda e à segurança alimentar em áreas de mangue e várzea, ecossistemas prioritários para a conservação e para a inovação em pesquisa científica em bioeconomia na Amazônia.
As áreas protegidas contempladas pelo projeto, somadas, representam um território maior que a Suíça e envolvem, de ponta a ponta, as reservas extrativistas da Costa Paraense, Reserva de Desenvolvimento Sustentável e Terras Indígenas no Amazonas, a Floresta Nacional e a Floresta Estadual do Amapá, entre outras áreas de importância socioambiental.
O projeto é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e conta com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no papel de agência implementadora e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) como agência executiva. A execução do projeto é de responsabilidade do Instituto Mamirauá, centro de excelência em pesquisa aplicada vinculado ao MCTI.
