logo Amazônia ON
Notícia

Deputada estadual mais votada de SP apresentou projetos de lei que repetem textos de outros políticos e erra até a própria cidade

Deputada estadual mais votada de SP apresentou projetos de lei que repetem textos de outros políticos e erra até a própria cidade

Projetos que Eduarda Campopiano (PL), eleita a deputada estadual mais votada de São Paulo nesta eleição, com 1,96 milhão de votos, apresentou enquanto vereadora na Câmara Municipal de Praia Grande, no litoral paulista, reproduzem artigos e justificativas de propostas que já circulavam em outras casas legislativas, aponta análise da BBC News Brasil.

Em dois documentos, a adaptação deixou até mesmo referências a lugares diferentes da cidade em que a parlamentar atuava: um programa de educação financeira destinado a Praia Grande fala em beneficiar cidadãos paulistanos; já uma proposta sobre multas pelo consumo de maconha destina recursos a organizações no município da Serra, no Espírito Santo, a mais de 700 quilômetros de distância da cidade em que ela atuava como vereadora.

Entre os textos reaproveitados estão também propostas do vereador Lucas Pavanato (PL), seu aliado na campanha de 2026, e da deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que Campopiano aponta como inspiração política, ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

A proximidade com esse grupo marca a trajetória da vereadora, que recebeu apoio eleitoral de Nikolas e fez campanha associada a Pavanato, os dois deputados federais mais bem votados nas eleições deste ano.

Deputada 'ideológica'

A atuação pública de Campopiano começou nas redes sociais ainda aos 18 anos, segundo a biografia do site de campanha.

Ela ganhou projeção fazendo oposição ao feminismo e ao aborto e defendendo o acesso de mulheres a armas de fogo. Também é crítica às cotas raciais.

Aos 21 anos, foi eleita vereadora de Praia Grande pelo PL com 3.583 votos, em 2024. Dois anos depois, recebeu 1.956.238 votos, a maior votação para deputado estadual em São Paulo.

Ela disse, na entrevista, que quer combater o que chama de "bandidolatria" no Brasil, "seja com bandidos de colarinho branco, seja no combate ao crime do dia a dia" e afirmou também que não quer que o aborto seja apenas proibido, mas "impensável".

"Quero viabilizar a ajuda para mulheres que engravidam em decorrência de violência sexual, para que elas não precisem matar o próprio filho, que nada tem a ver com o crime que foi cometido. E para que o verdadeiro monstro que cometeu o crime contra essa mulher apodreça na cadeia, coisa que não acontece hoje."

Projetos de lei para 'cidadãos paulistanos', recursos para município de outro Estado e referência ao ChatGPT

O levantamento da BBC News Brasil comparou as versões originalmente apresentadas dos 20 projetos de lei da vereadora com documentos de outras câmaras e assembleias legislativas.

Em ao menos 14, foram identificadas correspondências textuais, de artigos específicos a conjuntos extensos de dispositivos e justificativas. A extensão varia: há passagens idênticas e dispositivos com adaptações.

O Projeto de Lei (PL) 64/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril de 2026, propõe criar um programa de educação financeira nas escolas municipais de Praia Grande. Ele reproduz trechos inteiros do PL 875/2021, do vereador de São Paulo, de Rubinho Nunes (União Brasil), que criava o programa Jovem Capitalista.

Na versão de Campopiano, a iniciativa passou a se chamar Programa de Educação Financeira, mas a justificativa manteve menções ao Jovem Capitalista.

No encerramento, preservou a afirmação de que o programa "viabiliza uma realidade mais agradável e um futuro mais próspero aos cidadãos paulistanos", sem trocar o termo usado no projeto de São Paulo.

A redação e a sequência de diversos artigos também coincidem.

"Este projeto de lei dispõe sobre a implantação do Programa Jovem Capitalista, voltado à garantia do desenvolvimento intelectual, físico, emocional, social e cultural dos alunos da rede pública municipal de ensino", diz a justificativa de ambos os textos.

Outro caso é o PL 68/2026, protocolado por Campopiano em 11 de maio de 2026. Ele prevê multas administrativas pelo consumo de maconha na presença de crianças e adolescentes e em espaços públicos.

Há passagens semelhantes às de uma proposta da Câmara Municipal de Serra (ES), assinada em 23 de janeiro de 2025 pelos vereadores Pastor Dinho (PL) e Agente Dias (Republicanos).

Um dos trechos diz que os recursos obtidos com as sanções seriam destinados a organizações "no município da Serra", em vez de Praia Grande.

Houve ainda o PL 73/2025, de 24 de junho de 2025, que previa a obrigatoriedade dos hospitais públicos de emitirem diariamente boletim médico a respeito do estado de saúde e das condições de tratamento do paciente internado.

O texto do projeto cita ao menos uma fonte obtida no ChatGPT (uma das notas de rodapé traz um link com a marcação 'utm_source=chatgpt.com', que indica que o endereço foi copiado de uma resposta do ChatGPT) e aponta, para embasar seu amparo jurídico, a lei orgânica de outra cidade: São José (possivelmente o município de Santa Catarina, mas essa informação não aparece no documento).

"A proposta do ilustre edil está amparada juridicamente pela Carta Magna, Lei Orgânica do Município de São José e Regimento Interno desta Casa Legislativa, uma vez que aborda e defende o direito fundamental à saúde, informação e os princípios da transparência e publicidade", diz o texto.

Segundo o site da Câmara de Praia Grande, nenhum desses três projetos foi aprovado.

Em entrevista ao UOL, a deputada eleita afirmou que sua candidatura e seu trabalho parlamentar são "ideológicos".

"A minha legislatura como deputada na Alesp [Assembleia Legislativa de São Paulo] será muito mais ideológica do que a que foi de vereadora. Vamos intensificar nosso combate cultural. Acho que tudo que vira política, que se torna política pública um dia, já foi uma ideia em algum momento, já foi cultura, ideologia, uma discussão sobre moral, sobre o que é certo e errado."