A molécula por trás do formigamento do jambu e o que ela já provou em laboratório
Quem come tacacá ou pato no tucupi conhece a sensação: a boca formiga e a língua adormece por alguns instantes. O responsável tem nome e fórmula — espilantol, uma alcamida concentrada sobretudo nos botões florais do jambu ( Acmella oleracea ), hortaliça cultivada em quintais e vendida em maços nas feiras da região Norte. O efeito não é folclore: a substância e sua ação adormecedora foram identificadas ainda na metade do século 20 e, desde então, ela virou objeto de estudo em laboratórios brasileiros.
O que já está razoavelmente estabelecido é o efeito anestésico local. Em Campinas, um centro de pesquisas químicas e uma faculdade de odontologia desenvolveram um processo para obter extrato de jambu com alta concentração de espilantol e sem os pigmentos verdes da clorofila, o que abriu caminho para produtos como um filme pré-anestésico aplicado na gengiva para reduzir a dor da picada da injeção odontológica. Revisões científicas reúnem ainda ensaios sobre ação anti-inflamatória, antimicrobiana, diurética e larvicida contra mosquitos.
Aqui entra o "mas". A maior parte desses resultados vem de testes em laboratório, em células ou em animais — e ensaios clínicos com pessoas ainda são poucos. Isso significa que nada autoriza tratar chá de jambu, folha refogada ou extrato caseiro como tratamento de doença. Promessas de emagrecimento, de cura de inflamações crônicas ou de aumento de desempenho sexual não têm respaldo em estudo clínico; o que existe é potencial farmacológico em investigação, coisa bem diferente de remédio aprovado.
Nos cuidados, vale lembrar que o jambu é da mesma família da margarida e do girassol (Asteraceae), e quem tem alergia a plantas desse grupo pode reagir. A dormência na boca e na garganta, em quantidades grandes, atrapalha a deglutição — atenção redobrada com crianças e idosos. Gestantes e lactantes devem evitar o uso medicinal, já que não há estudos de segurança para esses grupos. E o essencial: este texto é informativo e não substitui orientação médica. Nenhum tratamento em curso deve ser interrompido ou trocado por conta própria.
