Messi ainda chora: como uma noite de Copa do Mundo emocionou o astro que já viveu quase tudo
O que o futebol ainda pode oferecer de diferente a Lionel Messi? Títulos já foram muitos, inclusive o da Copa do Mundo. Jogos? Milhares, incluindo 27 em Mundiais - um recorde. Gols? Muitas centenas, quase chegando a mil. Mas, aos 38 anos e com uma carreira que o coloca como um dos maiores jogadores da histórias, Messi ainda chora.
Chora em uma noite de primeira rodada de fase de grupos de Copa do Mundo. Chora em um duelo contra a Argélia, adversário duro, mas não entre os mais badalados de sua história. Chora por ter vivido, nesse cenário, na pacata cidade de Kansas City, nos Estados Unidos, um raro momento inédito: um hat-trick que o tornou o maior artilheiro da história das Copas. Chora porque balançar as redes em um Mundial trouxe alívio em meio a um drama pessoal.
A verdade é que se trata de uma questão completamente alheia ao esporte. Passei por alguns dias difíceis e complicados, mas sou grato a toda a delegação, a todos os meus companheiros de equipe, porque eles sempre estiveram ao meu lado, me dando muita força para superar isso, e é só isso.
A fala de Messi é simbólica de seu momento de lua de mel com a Argentina e com a Copa do Mundo. Quem diria há quatro anos que o Mundial deixaria de ser um tema amargo para passar a ser como um remédio para o jogador?
O início da despedida
A Copa começou para Messi em um tom de despedida, em meio à vontade de aproveitar o Mundial que tende a ser o mais leve de sua carreira. A sexta Copa do Mundo do craque não veio com o rótulo de fardo das outras cinco, quando Messi sentia sobre si a pressão de tentar levar a Argentina de novo às glórias. Em 2026, não: chegou com seus companheiros como atuais campeões, curtindo até o fim o trono ostentado nos últimos anos.
Mas, para Messi, leveza pode ser o prenúncio de genialidade. Que não vem sem uma boa dose de dedicação. O camisa 10 deu o recado aos torcedores e companheiros que o idolatram com gestos ainda no começo do duelo de terça-feira, aos dois minutos, ajudando em um desarme perto da defesa. Faria isso outras vezes no jogo, como quando ganhou uma dividida com Moussa e ainda impediu um escanteio.
Ali, o estádio gritou seu nome pela primeira vez numa noite que ainda se desenharia histórica. Não pelo chute preciso que bateu o goleiro Luca Zidane aos cinco minutos, em lance que seria anulado por impedimento, mas pelas outras três vezes que ele faria o mesmo, sua especialidade: balançar as redes.
O primeiro em um chute colocado, que Zidane não conseguiu defender. Explosão nas arquibancadas, e comemoração emocionada no campo: um choro de uma estrela, que comoveu os companheiros e gerou uma onda de abraços ao camisa 10. Depois, sozinho, Messi levantou as mãos para os céus algumas vezes. Caminhou, olhou para os torcedores, e buscou se recompor.
Por pouco, a noite não ficou melancólica para o astro. A vontade de ajudar na marcação não foi acompanhada pela precisão ao tentar um desarme. Messi atingiu em cheio Mandi, em um lance que gerou muita reclamação do jogador e de outros atletas da Argélia. O árbitro, porém, não mostrou nenhum cartão, e o VAR não recomendou a revisão. De fato, a Copa do Mundo anda de bem com o camisa 10 argentino.
Ao fim do primeiro tempo, os jogadores da Argentina deixaram o campo todos juntos, seguindo um homem que ia à frente: claro, Lionel Messi. Uma imagem simbólica de um time que não esconde a admiração por seu líder.
- Os rapazes o veem como um deus, mas também como um garoto de bairro - resumiu depois do jogo o técnico Lionel Scaloni.
Pronto para o novo aos 38 anos
O segundo tempo do confronto em Kansas City ajudou a endeusar ainda mais o capitão argentino. Messi voltou mostrando que queria jogo: tentou um chute, que foi para fora. E depois apareceu com um faro de artilheiro para aproveitar rebote de Luca Zidane. Uma comemoração não tão emocionada como a primeira, mas que gerou mais uma onda de reverências no estádio.
Mal sabiam os torcedores que o ápice da noite ainda estava por vir. Após a pausa para a hidratação, Messi caiu na área e pediu pênalti - e os fãs gritaram juntos, sabendo que o camisa 10 poderia chegar ao hat-trick em uma eventual cobrança. Mas nem foi necessário a penalidade máxima: pouco depois, ele marcou o terceiro da noite com um toque colocado no canto do goleiro.
Não foi um gol qualquer entre os 920 que ele ostenta na carreira: esse o colocou como o maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com 16 gols, ao lado de Klose. Um feito absurdo e que poderia ser imprevisível para quem andava trocando farpas com o torneio até 2022. E ainda com uma sensação inédita: Messi jamais havia feito um hat-trick em Copas.
Após ser substituído aos 34 do segundo tempo, Messi não sentou no banco de reservas ou foi para os vestiários. Sentou-se no chão, à beira do campo, tirou as chuteiras e conversou com os companheiros, sorrindo. Totalmente em casa.
A noite histórica em Kansas City mostra que, apesar da idade avançada e ter uma das carreiras mais vitoriosas da história do esporte, Lionel Messi está pronto para viver o novo na Copa do Mundo 2026. O primeiro a entrar em campo em seis edições do Mundial pode ter mais sete capítulos a escrever nessa relação repleta de emoção e choro - muitas vezes de tristeza, mas recentemente só de alegria.
