“Horas de barco por uma consulta”: médicas relatam rotina de atendimento em comunidades ribeirinhas
Experiência em UBS Fluvial revela impactos da falta de acesso à saúde e reforça importância do cuidado adaptado ao território
Manacapuru, 16 de abril de 2026 – Durante 12 dias, Amanda Canto e Danny Coutinho de Figueiredo, residentes do Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Manacapuru, percorreram 14 comunidades ribeirinhas no entorno do rio Solimões (AM), a bordo de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) Fluvial Catarina Brota. A ação levou atendimento a populações cujo acesso à saúde depende de horas de deslocamento pelos rios e, segundo as profissionais, evidenciou desafios da assistência em áreas isoladas, como a dificuldade de diagnóstico, a falta de acompanhamento contínuo e a influência das condições de vida no adoecimento da população.
A atuação das residentes ocorre por meio de uma parceria entre Afya Faculdade de Ciências Médicas de Manacapuru, que responde pela parte acadêmica, e a prefeitura local, via Secretaria Municipal de Saúde, que disponibiliza os locais de prática na rede pública, como unidades básicas, hospital, maternidade e policlínica.
Para a médica residente Danny Coutinho de Figueiredo, a vivência foi marcada pelo contraste entre as dificuldades estruturais e a forma como as comunidades recebem o atendimento. “O que mais marcou foi o acolhimento dos comunitários, a simplicidade na forma de viver e a gratidão no olhar de cada paciente. Ver a UBS Fluvial como o único elo de cuidado para essas famílias é emocionante”, relata.
A experiência também impactou profundamente a residente Amanda Canto, que participou pela primeira vez da expedição. “Estar inserida na realidade das comunidades ribeirinhas faz com que a gente repense completamente o conceito de acesso à saúde”, afirma.
De acordo com as residentes, as principais demandas de saúde observadas incluem doenças infectocontagiosas e parasitárias, problemas dermatológicos, dores osteomusculares e doenças crônicas como hipertensão e diabetes, muitas vezes sem acompanhamento adequado. Também foram registrados casos de acidentes com animais peçonhentos e situações de diagnóstico tardio. “Atendemos pacientes com condições crônicas avançadas que nunca haviam recebido diagnóstico”, relata Amanda.
Segundo o coordenador dos programas de Residência da Afya Manacapuru, Israel Reis, esse cenário reflete desafios estruturais da atenção básica em áreas isoladas. “Quando o acesso é limitado, o diagnóstico tende a ser tardio e o acompanhamento mais difícil. Por isso, ações como a UBS Fluvial são fundamentais para reduzir essas lacunas e levar cuidado a populações que dificilmente chegariam até os serviços de saúde”, afirma.
Para Amanda Canto, atuar em uma UBS Fluvial exige adaptação constante. “Muitas vezes é preciso tomar decisões importantes sem acesso imediato a exames complementares”, explica. Ela também destaca que a continuidade do cuidado é um dos principais desafios, especialmente para pacientes com doenças crônicas.
De acordo com a diretora da Afya Manacapuru, Karen Ribeiro, a experiência reforça a importância de uma formação médica voltada para diferentes realidades. “Esse tipo de vivência permite que os profissionais em formação compreendam, na prática, os desafios do acesso à saúde na região amazônica. É um aprendizado que envolve não só a técnica, mas também sensibilidade e adaptação ao território”, destaca.
Segundo as médicas, a realidade ribeirinha influencia diretamente a saúde da população. Fatores como o ciclo dos rios, a alimentação baseada em recursos locais e a distância dos centros urbanos contribuem para o agravamento de doenças e dificultam o acompanhamento contínuo. “Tudo isso pode levar a diagnósticos tardios e ao agravamento de condições que seriam tratáveis em outros contextos”, afirma Amanda.
Entre os atendimentos, histórias individuais marcaram a experiência das médicas. Amanda relembra o caso de um idoso que percorreu horas de barco para conseguir uma consulta. “A dedicação dele em buscar esse cuidado reforça a importância do nosso papel”, conta. Já Danny destaca uma visita domiciliar em que a escuta teve papel central no cuidado, indo além da prescrição médica.
Ao final da expedição, as médicas destacam a necessidade de uma prática adaptada ao território. “O cuidado começa antes da consulta e envolve entender a realidade do paciente”, afirma Danny. Para Amanda, a vivência também reforça a importância de políticas públicas voltadas às populações mais vulneráveis e de uma prática médica baseada na escuta e no contexto.
