Rios sob domínio: como facções usam a Amazônia como corredor invisível para o tráfico
À noite, os rios da Amazônia se transformam em corredores invisíveis. Embarcações deslizam silenciosas, quase imperceptíveis, carregando drogas escondidas em fundos falsos, misturadas em gelo ou barro, escapando da fiscalização. O som dos motores ecoa no escuro, enquanto comunidades ribeirinhas, muitas vezes sem alternativa, tornam-se parte de uma engrenagem criminosa.
Esse cenário é descrito pelo capitão Dilson, do Comando de Policiamento Ambiental da Polícia Militar do Amazonas:
O ribeirinho, muitas vezes, nem tem a opção de negar. Eles colocam a droga na embarcação e mandam entregar em determinado porto. Por trás daquele transporte tem combustível mais barato, favores e benefícios adquiridos do crime organizado.”
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública confirma a dimensão do problema: facções já atuam em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal, um avanço de 32% em apenas um ano. O Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) diversificaram as atividades: além do tráfico de drogas, operam com contrabando de armas e combustíveis, garimpo ilegal, pesca predatória e extração clandestina de madeira.
Diferentemente de outras regiões do país, no Amazonas o crime organizado não surgiu nas capitais, mas no interior, explica o especialista em segurança pública Alison Carvalho.
“As facções se instalaram primeiro em cidades pequenas e estratégicas, próximas às fronteiras e às rotas fluviais. Tabatinga, São Paulo de Olivença e Benjamin Constant se tornaram bases logísticas para o intercâmbio entre cartéis colombianos e facções locais, aproveitando-se do isolamento e da ausência do Estado.”
Essas cidades funcionam como portas de entrada para drogas vindas da Colômbia e do Peru, que seguem pelos rios até Manaus, Belém e, depois, para o Sudeste e o mercado internacional.
Carvalho reforça que o aliciamento não ocorre apenas pela intimidação, mas pela oferta de meios de sobrevivência em regiões onde o Estado não chega. Combustível irregular, garimpo ilegal, pesca predatória e madeira clandestina são usados como moeda de troca para que facções se apresentem como “parceiras” das comunidades.
Essa dinâmica cria uma economia criminosa totalmente integrada ao cotidiano. O ribeirinho não se vê como cúmplice, mas como alguém tentando sobreviver. Para o tráfico, porém, ele se torna peça-chave na logística.
O capitão Dilson detalha como ocorre o avanço das facções: “O PCC é mais focado na lavagem de dinheiro, é mais comercial. O CV, oriundo do Rio de Janeiro, é focado no domínio territorial. A economia base é o entorpecente, que permite adquirir armas e dominar a localidade. Depois que dominam, o tráfico passa a ser secundário e entram outros ilícitos, como grilagem, garimpo ilegal e crimes ambientais.”
Isolamento como arma de controle territorial
Dilson reforça que, ao contrário das favelas cariocas, na Amazônia o isolamento facilita o domínio.
“Eles utilizam mão de obra de grupos vulneráveis — indígenas, ribeirinhos e outros. Depois que controlam o território, o entorpecente vira secundário e aumentam outros ilícitos.”
Em diversas localidades, moradores não têm opção e cedem às ordens das facções.
“O ribeirinho às vezes nem sabe quem vai receber a droga. Já tem alguém esperando. Quando perguntamos, dizem que não sabem de nada. Por trás disso tem combustível mais barato e favores adquiridos do crime.”
