Medina e Fanning prontos para a briga pelo título na lendária Pipeline

"Por que têm tantos brasileiros aqui?", perguntou Kelly Slater, ao ser cercado por jornalistas do Brasil em uma coletiva de imprensa informal, nos jardins de uma casa em frente à praia de Pipeline, no Havaí. "Vou estragar a alegria de vocês", brincou o americano, arrancando gargalhadas de todos à sua volta. A razão da presença em massa da imprensa verde-amarela tem um motivo óbvio: Gabriel Medina. Número um do mundo, o jovem de 20 anos pode fazer história se conquistar o inédito título mundial para o país no surfe. A última etapa do Circuito Mundial (WCT), o Pipe Masters, no lendário pico do North Shore de Oahu, irá definir o campeão de 2014.
O brasileiro esteve na liderança em nove de 10 etapas disputadas e é o único que depende apenas de si mesmo para ir ao topo, basta chegar na final. Mas, em seu caminho, estão dois rivais que somam 14 títulos, 11 de Slater e três do australiano Mick Fanning, atual campeão.
A janela do campeonato fica aberta até o dia 20 de dezembro e a expectativa é de que ondas fiquem grandes e pesadas. Uma chamada para avaliar o mar será realizada nesta quarta-feira, às 15h30 (de Brasília). Se o vento estiver favorável, a organização do evento irá retomar a triagem, paralisada na decisão. Os finalistas são os havaianos Reef Mcintosh, Makai McNamara, Hank Gaskell e Jamie O'Brien. Se a natureza cooperar, os três concorrentes ao título entram na água na sequência. Diretor da ASP (Associação de Surfistas Profissionais), Renato Hickel contou que o campeonato poderá terminar nos próximos três ou quatro dias, se as condições forem boas. Caso contrário, a disputa poderá ser fragmentada ou adiada.
- Começamos o período de espera com uma das melhores previsões dos últimos anos. Se o vento estiver favorável, terminamos a competição em três ou quatro dias. Os ventos estão variáveis, por isso, vamos avaliar no início do dia. Se as condições não estiverem favoráveis, podemos terminar a prova em oito dias pela metade, ou seja, finalizar as baterias até o meio dia.
Slater fala sobre Medina: ''Sangue Novo"
Em 38 anos de surfe profissional, a hegemonia foi de americanos e australianos. Os sul-africanos Martin Potter e Shaun Thomson foram os únicos a quebrar a escrita. Agora, um menino da praia de Maresias, na cidade de São Sebastião (SP), poderá se tornar o primeiro sul-americano a conquistar o feito, que abriria as portas para muitas crianças e adolescentes ao redor do mundo acreditarem no sonho. Até mesmo Slater confessa que é preciso de "sangue novo".
- Um título do Gabriel seria bom para todo mundo, é sangue novo. Nos últimos anos, eu, o Mick e o Joel (Parkinson) tivemos muito sucesso. Acho que fica meio chato para quem está assistindo ver sempre os mesmos caras ganhando títulos. É bom ter gente nova e o fato de ser um brasileiro é importante. O país nunca ganhou um título mundial, pelo menos, profissionalmente. Vocês (brasileiros, jornalistas) têm inúmeros títulos no surfe amador, com Fabio Gouveia, Flávio Padaratz e muitos outros. Seria um feito histórico, mas, vou fazer de tudo para o Gabriel perder (risos) - disse Slater, que já venceu sete vezes o Pipe Masters.
Medina lidera o ranking 56.550 pontos, uma vantagem de 6.500 pontos sobre o americano, na terceira posição, com 50.050. Para levar o seu 12º caneco para casa, Kelly precisa ser campeão para chegar a 58.300 e ainda torcer para que o brasileiro seja eliminado até a terceira fase. A maior ameaça de Gabriel, no entanto, é Fanning, o seu "inimigo íntimo". Afinal, os dois dividem a mesma casa em Pipeline. O australiano chega aos 56.550 se avançar às quartas, mas também precisa de uma combinação de resultados. Se empatar com o brasileiro, haverá uma bateria extra, homem a homem, para definir o melhor do ano.
- O Mick e o Kelly já passaram por isso, têm mais experiência do que eu, mas eu estou tranquilo. É como a minha mãe fala: "Ninguém é maior do que Deus". Tenho treinado muito em Pipe e estou confiante. Eles precisam passar as baterias e eu dependo de mim, não estou pensando em ninguém. Estou focado e me sentindo bem - disse Medina.
Na última etapa, em Peniche, Portugal, Gabriel desperdiçou a chance de ser campeão mundial por antecipação ao ser eliminado precocemente, ainda na terceira fase, pelo americano Brett Simpson. Para sua sorte, Slater também caiu na bateria seguinte, perdendo para o espanhol Aritz Aranburu. Mick Fanning acabou vendendo em Supertubos e assumiu a vice-liderança. O Pipe Masters, que já teve oito e até 16 "wildcards" (convidados), terá este ano apenas dois havaianos. Com isso, 36 atletas, divididos em 12 baterias, estarão na briga pelo título nas ondas tubulares e perfeitas de Pipeline. A primeira fase não é eliminatória - quem vencer, vai direto para a a terceira, enquanto os perdedores disputam uma repescagem.
Na estreia, Medina enfrentará o australiano Dion Atkinson e outro convidado, que sairá da triagem. Fanning, por sua vez, terá pela frente o espanhol Aritz Aranburu e um rival a ser definido. Slater medirá forças com o "aussie" Adam Melling e o havaiano Dusty Payne.
- Vai ser divertido, vamos pegar uns tubos. O Gab é um menino incrível e um surfista completo. Ele teve um ano difícil no ano passado, quebrou a perna no Havaí (depois do Pipe Masters) e surfou muito bem este ano. O Kelly também é incrível. Já passou por essa situação diversas vezes e é um fenômeno. Espero que tenhamos um bom desempenho para fechar o ano com chave de ouro - disse Mick.
CONFIRA AS BATERIAS DA 1ª FASE
1: Joel Parkinson (AUS), Julian Wilson (AUS), Glenn Hall (IRL)
2: Michel Bourez (TAH), Sebastian Zietz (HAV), Raoni Monteiro (BRA)
3: John John Florence (HAV), Matt Wilkinson (AUS), Mitch Coleborn (AUS)
4: Kelly Slater (EUA), Adam Melling (AUS), Dusty Payne (HAV)
5: Mick Fanning (AUS), Aritz Aranburu (ESP), classificado da triagem havaiana
6: Gabriel Medina (BRA), Dion Atkinson (AUS), classificado da triagem havaiana
7: Jordy Smith (AFR), Jadson André (BRA), Jeremy Flores (FRA)
8: Kolohe Andino (EUA), Frederick Patacchia (HAV), Travis Logie (AFR)
9: Josh Kerr (AUS), Kai Otton (AUS), Brett Simpson (EUA)
10: Owen Wright (AUS), Adrian Buchan (AUS), Mitch Crews (AUS)
11: Nat Young (EUA), Filipe Toledo (BRA), Alejo Muniz (BRA)
12: Bede Durbidge (AUS), Miguel Pupo (BRA), Tiago Pires (POR)
